A EVOLUÇÃO DO PRONTUÁRIO ELETRÔNICO

A UTIL acredita que a tecnologia traz organização e eficiência à saúde. Movida pela inovação.


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Me dê um app que eu te darei o meu prontuário

Opinião UTIL

Nuno Morgado | Sócio na UTIL Healthcare

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Todos os anos, milhões de brasileiros fazem suas declarações de imposto de renda na internet através do serviço provido pela Receita Federal.  Encaminhamos informações sensíveis pela internet porque confiamos na tecnologia adotada.  Outro exemplo que demonstra a capacidade da internet de ser um ambiente seguro para a troca de informações sensíveis é o uso massivo de serviços bancários (“online banking”).

Agora imagine que você, paciente, necessite encaminhar o seu histórico de saúde para um médico que não seja o seu atual (por escolha própria ou por indicação do seu médico, por exemplo); ou, para uma clínica ou hospital.  Você provavelmente precisará preencher formulários, ou no mínimo encaminhar informações sensíveis via correio, fax, ou até mesmo gastar com entrega via motoqueiro (isso se o seu destinatário estiver na mesma cidade, é claro).  Alguns dias ou semanas depois, quem sabe, o seu prontuário estará acessível.  E os exames de imagens, o que fazer com eles?  Você se lembra da sua senha de login do portal do laboratório?  Qual laboratório mesmo?

Na primeira visita ao novo médico, com sorte os seus dados já terão sido inseridos em um prontuário eletrônico, mas com enormes chances dele não “conversar” com o prontuário eletrônico do seu médico original.  Com mais sorte ainda, todos seus dados estarão corretos (mas estou disposto a apostar que haverá erros).

Quais as razões por trás dessa discrepância de uso da tecnologia se a mesma já está disponível?  Porque conseguimos efetuar transações bancárias complexas através de um celular, mas não conseguimos compartilhar, com facilidade, nosso prontuário eletrônico através de uma plataforma uniforme que faça sentido para ambos médicos e pacientes?

Muito já foi dito sobre a incapacidade técnica (ou, em alguns casos, mera falta de vontade) de hospitais e médicos em compartilhar a informação eletrônica do prontuário do paciente.  As razões alegadas já são conhecidas: ausência de interoperabilidade entre sistemas existentes, fraca regulamentação da comunicação de dados no setor, segurança, privacidade, confidencialidade, entre outras.

Feliz, porém lentamente, há uma evolução perceptível.  Com o envolvimento direto do paciente, o compartilhamento fácil e seguro torna-se uma realidade.  Além de realidade, é uma necessidade: para que haja cumprimento à legislação vigente da SBIS (Sociedade Brasileira de Informática em Saúde), o paciente precisa autorizar o compartilhamento de seus dados clínicos a terceiros.  A vantagem: o paciente é quem controla seu prontuário, e autoriza o acesso a ele a quem quiser de forma pontual.  Porém, há também uma desvantagem: ter que liberar o acesso a cada vez que ele é requisitado, seja pelo seu médico principal, um especialista, ou até mesmo um hospital.  No final das contas, queremos sossego e esperamos que a tecnologia simplifique o nosso cotidiano, e não que o faça mais complexo.  Fica claro que o sistema de sucesso será aquele que simultaneamente cumprirá os requisitos da lei, dará autonomia ao paciente, e nutrirá o médico com informações relevantes para a sua prática.

A importância das APIs (Application Programming Interface) vêm à tona então.  As APIs permitem que dados sejam compartilhados para propósitos específicos, e não necessitam que sistemas “falem” a mesma língua de forma nativa.  Já existem soluções no mercado que permitem o armazenamento e acesso seguro do prontuário eletrônico do paciente, porém, nenhuma é adotada de forma massificada e convincente.  Mais importante é o fato de que não há nenhuma solução no mercado brasileiro que permita esse compartilhamento fácil e desburocratizado.  Há uma lacuna a ser preenchida.

Veja o post original no LinkedIn aqui.

E veja o artigo (em inglês) relacionado aqui.


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A teoria econômica, a tecnologia, e o prontuário eletrônico

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Opinião UTIL

Nuno Morgado | Sócio na UTIL Healthcare


A teoria econômica sugere que o uso da tecnologia em qualquer processo, seja esse de uma indústria de manufatura ou de provisão de serviços, é a única forma de aumentar a produtividade real do mesmo a longo prazo.  O uso incremental de outros recursos pode trazer benefícios a curto prazo, mas essa estratégia (normalmente) tem ganhos sucessivamente menores (Lei dos Rendimentos Decrescentes).

O curva da PPF (Production Possibility Frontier) acima é relevante nesse contexto.  Se presumirmos o pleno e eficiente uso dos recursos disponíveis, as combinações de produção e/ou provisão são ilustradas no gráfico ao longo da curva na cor laranja (na forma dos pontos A, B ou C).  Porém, se quisermos atingir um novo patamar (ex.: ponto Y), forçosamente precisamos de maior produtividade, e é exatamente aqui que o uso inteligente da tecnologia é importante.

O setor da saúde é um exemplo prático para exemplificar as teorias propostas. Um gestor de uma unidade pode, a curto prazo, se beneficiar por contratar mais enfermeiros, por exemplo.  Porém, a longo prazo, seu benefício marginal certamente cairá se a produtividade (simplesmente definido como resultado por pessoa por unidade tempo) não for priorizada.  Fica claro aqui o importante papel do uso do prontuário eletrônico e seus desdobramentos para propiciar exatamente esse aumento de produtividade.

Do estudo referente ao uso da tecnologia de prontuários eletrônicos que contemplou aproximadamente 2.000 estabelecimentos no ramo (TIC Saúde 2014), algumas conclusões podem ser traçadas.  O estudo coletou informações de aprox. 2.000 estabelecimentos de saúde que declararam ter utilizado a internet nos últimos 12 meses em relação ao momento da entrevista.

O estudo revelou, entre outros, que:

  • 25% do setor privado usa soluções unicamente em papel, versus 69% no setor público;
  • Aproximadamente um terço (~35%) do setor privado alega usar somente o modelo eletrônico de prontuário do paciente;
  • 75% do setor privado usa algum tipo de prontuário eletrônico.

blog pic28.22

Apesar das estatísticas acima apontarem para uma saudável penetração de uso de algum tipo de sistema eletrônico para a gerência das informações dos pacientes, temos que ter cautela para não as considerarmos como verdades absolutas.

Basta falar com alguns médicos e profissionais do ramo para constatar a predominância da insatisfação com sistemas que não atendem às necessidades reais; e ausência de algo que realmente se insira na rotina desses profissionais.

Se olharmos um pouco mais o detalhe da pesquisa, concluímos que aínda existe muito a fazer na implementação digital do prontuário eletrônico.  Vejamos dois exemplos:

  • Apesar de 73% dados cadastrais estaram disponíveis eletronicamente, esse tipo de informação por si só agrega pouco valor ao médico (e até mesmo ao paciente);
  • Informações muito mais relevantes como alergias (31%), anotações da enfermagem (27%) e sinais vitais (25%) têm níveis de disponibilidade eletrônica bem mais baixos.

A conclusão é que aínda temos um longo caminho a trilhar antes de considerarmos que o nosso mercado está “digitalizado” na questão do prontuário eletrônico.  As estatísticas da referida pesquisa são somente isso – estatísticas – e o fato é que elas são interpretativas e não revelam a realidade do cotidiano da saúde no país.  Existe uma lacuna fundamental aínda a ser preenchida: a de agregar valor à rotina do médico de forma inteligente e concisa através da interpretação da multiplicidade dos dados coletados.  O modelo atual do prontuário eletrônico no Brasil simplesmente não faz isso.

Veja o post original (no LinkedIn) aqui.

E veja o post relacionado (e o infográfico original na sua totalidade) aqui.


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O paradoxo tecnologia-empatia

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Dr. André Hovnanian, MD, PhD, e Sócio na UTIL Healthcare


Separados por cem anos, Ferdinand Tönnies e Giacomo Rizzolatti protagonizam a compreensão sobre o homem social.

Tönnies é considerado um dos fundadores da moderna Sociologia. Em 1887, publica sua primeira e grande obra:Comunidade e Sociedade. Numa crítica contundente à cultura da modernidade, embasado em abrangente estudo sobre o homem social, o autor contrapõe os conceitos de comunidade aos de sociedade. Enquanto a comunidade, centrada na coletividade, é regida por vínculos primários de família e mútua troca, na sociedade, prevalece o relacionamento impessoal, instrumental e utilitarista, fruto direto da urbanização e do capitalismo.

Ao italiano Rizzolatti, credita-se uma das maiores descobertas da neurociência: os neurônios em espelho. Envolvidos com sofisticados comportamentos visuoespaciais, este conjunto de neurônios responde, sobretudo, por uma singular qualidade superior: a empatia. Empatia pode ser entendida como a capacidade de sentir emoções de outras pessoas e de imaginar o que alguém pode estar pensando ou sentindo. Ela é o ingrediente fundamental por trás de nossa evolução em grupo. 

Rizzolatti identificou a circuitaria de neurônios responsável por explicar parte importante de nosso comportamento social, oferecendo uma base biológica para o homem social. Tönnies, por sua vez, percebera, ao final do século XIX, que o homem moderno já sofria de uma, hoje, endêmica enfermidade: a deficiência de empatia.

Evidências científicas revelam a existência de uma base genética para a empatia (como no autismo), e mais, sugerem que esta preciosa característica possa ser modulada por mecanismos de neuroplasticidade. Uma das maneiras mais eficientes de aprimorá-la é a contação de histórias. Até mesmo a mais simples narrativa, desde que atraente e em conformidade com o chamado arco dramático, é capaz de provocar poderosas respostas empáticas, mediadas pela liberação de ocitocina no hipotálamo. O mesmo se observa com a arte e a literatura.

Mas o que a tecnologia tem a ver com tudo isso? À medida que a tecnologia faz do mundo um lugar menor e mais conectado, a empatia deveria ganhar cada vez mais importância. Lamentavelmente, não é o que se observa. Existe uma diferença marcante entre as curvas de crescimento da tecnologia e da empatia ao longo do tempo: seus sentidos são inversos. Acredita-se que um forte determinante da baixa na empatia seja o crescente fenômeno de mídia pessoal. Não se lêem nem se contam mais histórias como nos tempos de comunidade.

E o futuro? Se é verdade que o desenvolvimento total da inteligência artificial pode representar nossa maior ameaça (afirmação de mentes brilhantes como a de Stephen Hawking e a de Elon Musk), urge que a tecnologia aprenda, apreenda e transmita, de forma empática, bons exemplos.

O maior desafio de nossos tempos será, portanto, o de desfazer o paradoxo tecnologia-empatia. O caminho é o da construção de um arranjo equilibrado entre estes dois conceitos aparentemente antagônicos, de modo a recuperar o abandonado espírito de comunidade num momento de ampla complexidade tecnológica e social. Que tal começar contando mais histórias?

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Tecnologia: uma revolução na evolução

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Opinião UTIL

Dr. André Hovnanian, MD, PhD, e Sócio na UTIL Healthcare


Desde que a primeira faísca, não por acaso, deu origem ao fogo pelas mãos de nossos ancestrais, a então escura caverna ganhou mais do que misteriosas sombras cambaleantes; sob efeito da luz, ela hospedou uma das mais sensíveis revoluções da História: o nascimento da tecnologia.

Desde então, esta poderosa máquina transformadora nunca deixou de funcionar. Movida pela vigorosa combinação entre ciência e conhecimento (da qual também faz parte recursivamente), a tecnologia segue influenciando ativa e diretamente os rumos de nossa História: domesticamos animais, controlamos técnicas de cultivo, construímos máquinas, vencemos a gravidade, desafiamos a morte.

Atingimos, portanto, a posição privilegiada de mais do que observar e analisar fenômenos – aprendemos a modificá-los. O campo científico é bastante ilustrativo: em menos de duas décadas, até 2013, transformamos uma quantidade incalculável de dados em mais de 33 milhões de artigos científicos que tiveram profundo impacto sobre todo tipo de fenômeno (natural, humano ou social), remodelando sua natureza. Ainda que tamanha enxurrada de conhecimento deva ser interpretada com cautela, é fato que a tecnologia esteve presente em todos os pontos dessa longa cadeia produtiva, até mesmo em assegurar a conexão e o trabalho cooperativo entre cientistas de diferentes partes do globo.

De onde emerge uma questão tanto ingênua quanto complexa: a tecnologia aproxima pessoas? Afinal, é inegável dizer que ela é (ou sempre foi) parte integrante e inseparável do nosso sistema social. Hoje, vivemos, a pleno vapor, a era da revolução digital, talvez a mais revolucionária de todas as revoluções. Seus impactos são grandiosos e tão extraordinários que, atualmente, quase metade da população mundial encontra-se separada tão somente por uma tela de variados tamanhos com luz (e vida?) própria. Logo: estamos mais próximos?

A tecnologia afastou-nos do escuro, revolucionando definitivamente todo o processo evolutivo humano. Trouxe-nos conquistas e desenvolvimento. E não cansa de modelar nossa geometria social. Mas a que custo? Sozinha, terá ela fôlego para sustentar sua própria revolução?

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Hoje, iniciamos a produção de conteúdo original entitulada “Opinião UTIL”. Nosso primeiro artigo é de autoria do Dr. André Hovnanian, sócio-fundador da UTIL Healthcare.

Dois mil e quinze é o ano em que a teoria da relatividade geral de Albert Einstein completa 100 anos. Simplificadamente, a teoria posiciona o espaço-tempo como uma entidade dinâmica, moldada geometricamente pela matéria por ação da gravidade. Tal interação é que determina a existência dos tão divulgados buracos negros, cuja gigantesca massa não permite nem mesmo que a luz passe incólume.

Cem anos depois, num mundo em acelerada transformação, a humanidade vem tentando contornar um implacável fenômeno distorcivo causado pelo excesso de dados sobre outra espécie de geometria: a do “homem-tempo”, na qual indivíduos mutuamente desvinculados enfrentam um impiedoso efeito de compressão do tempo.

Dados escondem fenômenos naturais, humanos e sociais. Só existem porque possuímos a peculiar capacidade de observar e questionar. É o que nos leva a quantificar os fenômenos de forma ininterrupta. Ocorre que a massa de dados tornou-se tão complexa, variada e volumosa que sofremos um profundo desvio. E perdemos o controle: isolados e sem tempo, não estamos conseguindo transformar grande parte dos dados em conhecimento. O homem torna-se vítima de sua própria natureza.

Contudo, uma grande força, impressa no nosso DNA, pode ser a chave: ancestral à nossa própria espécie, a tecnologia cristaliza nossa capacidade de intervenção sobre o meio, de modo a afetar nossa própria existência. Ela é quem pode nos conduzir para fora desse imenso buraco negro. E, quem sabe, moldar uma nova geometria.

(Este é o primeiro de um conjunto de textos sobre tecnologia e suas interfaces. Espero por vocês nos próximos. Obrigado!)

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